vialgarve
Visite a nossa página vialgarve
sexta-feira, março 12, 2004
 
(ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL BARLAVENTO, 11-03-2004)

PSD e CDU de VRSA recusam assinar as minutas das reuniões do
Executivo porque as actas estão atrasadas 2/3 meses. Quer comentar?


O problema das actas das reuniões da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, se não fosse um problema sério e com consequências desagradáveis, até seria mote para um filme de comédia. Por entre várias peripécias caricatas, sobressai o facto da autarquia entender ter o direito de entregar tardiamente aos outros, leia-se oposição, as actas da reunião da câmara «às vezes não traduzindo o que foi dito e com lacunas», conforme reconheceu o autarca Mário Sousa, eleito pela CDU.
Parece que é moda. Mas se assim for, é uma moda estúpida. Jogar com as palavras, consciente que há-de haver alguém que faça à posteriori uma purificação das mesmas, é uma moda usada com o objectivo de encobrir os ditos menos felizes de alguns políticos.
Ainda há pouco tempo, numa reunião da Assembleia Municipal de Portimão, o presidente da Câmara, quando confrontado se havia utilizado uma expressão em determinada cerimónia pública, respondeu que, nessa altura, estaria a brincar e a ser irónico. Assim justificou o que proferiu. Provavelmente, se não fosse numa cerimónia pública, logo presenciada por dezenas de pessoas, por certo, alguém se encarregaria de apagar a tal frase ou mudar-lhe o sentido.
Quero deixar bem vincado que, nestes e noutros casos, não estão em causa os funcionários administrativos que transcrevem as palavras proferidas em qualquer reunião pública. Estão em causa algumas mentes perversas, julgando que podem dizer o que lhes convém e apagar posteriormente aquilo que soou muito mal.
Só para acabar o pequeno mas significativo episódio portimonense, nessa reunião, o presidente da Câmara, fez ainda pior, ou seja, recalcou o seu erro, dando a entender que misturou a ironia e a brincadeira com declarações sérias sobre o seu concelho.
A não ser que não saiba dizer nada sério, o que eu até desconfio, e aí o caso tem que ser interpretado de outra maneira, o seu comportamento foi e é condenável.
Voltando ao assunto principal, o problema das actas e minutas aqui colocado, resume-se a um diagnóstico, isto é, a falta de rigor.
Por todos sabermos que à mulher de César não basta parecer, tem que ser, a gestão de órgãos públicos, principalmente estes, não se coadunam com a dúvida ou falta de transparência. A autarquia tem que providenciar todos os meios para que qualquer autarca possa aceder à informação debatida em qualquer sessão política.
Afirmar que não dispõe de meios, ou lançar para a praça pública argumentos com o objectivo de dramatizar este processo, quando só há um responsável pela situação em si, é jogar com o sentimento das pessoas, optando por uma política baixa e que não é recomendável. Colar a justa reivindicação da oposição, que data de Julho de 2002, à impossibilidade de aprovação de certo tipo de investimentos ou ao não pagamento a alguns fornecedores, é, para mim, um comportamento que roça a irresponsabilidade.
Os partidos que estão na oposição, até a situação estar devidamente regularizada, devem-se insurgir, tomando decisões que, embora tendo em conta o interesse dos munícipes, não deixem de ser avisos sérios e persuasivos.
Há políticos que, só porque estão no poder, gostam de tomar todos os outros por pouco inteligentes. São comportamentos condenáveis.
Alguém tem que lhes explicar que a democracia só existe quando sabemos conviver com a diferença de opiniões e, fundamentalmente, quando o nosso comportamento não merece qualquer tipo de reparos. Saber estar na causa pública com rigor, isenção e responsabilidade são qualidades que se exigem e das quais não devemos abdicar.
quarta-feira, março 10, 2004
 
DÁ-ME LICENÇA SR. DR.?

In Região Sul, edição 10 Março 2004

A grande maioria dos jovens portugueses teve o mesmo conselho dos seus progenitores:
- “Filho(a), procura ser alguém na vida. Vê lá se consegues ser um doutor(a).”
Foi neste espírito, aliado a um esforço paterno e materno, muitas vezes no limiar das suas possibilidades físicas e monetárias, que muitos dos actuais licenciados se formaram, cumprindo, desta forma, um anseio a todos os níveis louvável, de muitos pais que, por um motivo ou outro, não tiveram ou não puderam frequentar o ensino superior. Importa recuar um pouco, talvez 30 ou 40 anos, até à sociedade da época, para sentirmos o porquê deste pedido familiar. Nesses tempos, a educação ministrada no ensino secundário e universitário, era uma meta apenas tangível para alguns e intimamente relacionada, não só com as capacidades intelectuais, mas também, e muito, com a disponibilidade financeira que cada família possuía.
Ser doutor significava por isso, pertencer a um grupo de pessoas, justamente cultas e sábias (o que não invalida um conjunto de excepções, como em tudo na vida), reconhecidas pela população como autênticos senhores distintos e com direito a um conjunto de mordomias e serventias.
Esta imagem que se foi esbatendo no tempo, talvez ainda perpetuada nos meios mais pequenos, é, para mim, uma das grandes forças motrizes que levaram os “nossos” pais a incentivarem-nos quando nós, naqueles dias onde se evidenciava mais a irreverência adolescente, púnhamos a hipótese de começar a trabalhar e/ou abandonar a escola.
Portugal é hoje um país de licenciados. Há licenciaturas para todos os gostos e são vendidas anualmente promessas que, infelizmente, muitas vezes não se concretizam.
A ideia de que todos se podem e devem tornar doutores assumiu a ordem do dia. Não vejo mal nisto se encararmos o défice que ainda subsiste ao nível de licenciados. Mas, se analisarmos a oferta universitária, aí já se me colocam sérias reservas, nomeadamente pela inexistência de um planeamento político capaz de enfrentar e solucionar as lacunas do mercado de trabalho.
O ensino profissional foi abandonado e tal facto trar-nos-á sérias consequências muito em breve. O ensino universitário atingiu o seu apogeu teórico, negligenciando a vertente prática, fundamental para que os jovens ingressem no mercado de trabalho. Enfim, tudo em nome de ser doutor a todo o custo, muitas vezes descurando as capacidades e responsabilidades inerentes, a troco do nome pomposo e do pretenso estatuto social.
Há pessoas que inclusive perderam a noção das coisas. Ser doutor hoje não é ser mais do que ninguém. É apenas ter mais qualificações. Haja humildade para o reconhecer…
O culto do ser doutor, aliado ao que considero ser a má educação pessoal, traduzida numa altivez a todos os níveis reprovável, transbordou para um conjunto de situações bizarras e em tudo marginais ao real estatuto que um licenciado deve possuir, a começar pela postura humilde e responsável que deveria ter aprendido em casa e na escola.
Em muitas organizações, principalmente nas da administração pública, muitos deixaram de ter os seus nomes de baptismo. Passaram simplesmente a ser o(a) doutor(a).
Uns ainda se insurgem. Outros deixam-se levar porque, quiçá, necessitam disso para lhes encher o ego. Para mim, para além do erro técnico de chamar a um licenciado doutor, porque ele só o será quando completar o doutoramento (aí passa-se a escrever por extenso), caímos numa cultura de tratamento impessoal e passível de crítica.
Entendo que, tendo em conta uma perspectiva de vocabulário, só deveríamos tratar por doutores todos aqueles que pertencem às áreas da medicina, jurídica e académica. Juntaríamos a isto, por uma questão de cortesia e de bom senso, todos os casos em que as próprias pessoas o peçam, ou os casos em que nos sentimos menos à vontade para deixar de tratar as pessoas pelo seu título académico. Enfim, tudo decorre de uma avaliação individual e pessoal do tratamento e da forma como desejam ser tratadas.
Por mim, por mais cursos que tire, e independentemente da licenciatura que já possuo, farei questão de preservar o uso do meu nome porque o meu ego só fica preenchido com realizações profissionais e pessoais. Dispenso o resto.

Powered by Blogger

Weblog Commenting by HaloScan.com